Painel sobre Carnaval encerra exposição da Mangueira no Paço Imperial

20/08/2017

Qual a dimensão do Carnaval? Essa foi a questão central do painel que reuniu no último sábado (20/08), no Paço Imperial, no Centro do Rio, o carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira; a jornalista Flávia Oliveira; o professor e carnavalesco, Felipe Ferreira; e o diretor de Patrimônio Imaterial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Hermano Oliveira; mediados pelo jornalista Leonardo Bruno. A proposta era analisar como os elementos culturais e econômicos se entrelaçam na maior festa popular do Brasil e quais os caminhos para que o evento possa assumir seu papel de destaque na vida do país.

Para Leando Vieira, é importante ver as escolas como centros de preservação e difusão de cultura, não apenas em suas comunidades, mas para o país e o mundo. Ele admitiu que é preciso pensar as escolas como representantes da arte diária da área onde está localizada, construindo um desfile que leve suas raízes para o público, que tenha como meta expandir a arte de seu povo, a cultura, as tradições. 

Sobre Carnaval patrocinado ele não vê problema. Acha, porém, que a mercantilização do enredo pode levar a apresentações de qualidade inferior. Para ele, um enredo sobre cachaça, por exemplo, com patrocínio, poderia ser muito bom. 

- Tenho certeza de que as pessoas gostariam de cantar um samba sobre cachaça, ficariam felizes com um enredo sobre o produto. O que não dá é você ter de criar toda uma história para transformar um tema comercial em enredo - frisou.

A questão do distanciamento entre a população e as escolas de samba, que vem sendo falado por alguns comentaristas, teria várias origens. Uma delas é a falta de enredos que, realmente, consigam motivar o povo. Flávia Oliveira lembrou que as quadras de escolas de samba, todos os finais de semana, estão lotadas, porque os preços são acessíveis e é um espaço para brincar o Carnaval de sua escola. Felipe Ferreira também discordou dessa ideia de esvaziamento, ressaltando que durante toda a história das escolas de samba houve essa transformação, já que o Carnaval é uma entidade vida. Para ele, a cada ano, podemos apresentar o maior espetáculo de todos os tempos, criando uma nova era dos desfiles, ou transformar tudo num réquiem, consumindo-se em si mesmo, como aconteceu com os Corsos, por exemplo.

Ao falar sobre o impasse com a prefeitura, em razão da liberação de recursos para o Carnaval de 2018, Flávia pontuou que falta uma dimensão econômica do desfile na geração do Produto Interno Bruto (PIB) da cidade e do estado. O Carnaval, reiterou, não se encerra em si, mas contribui para geração de trabalho e renda em uma série de cadeias produtivas, como a dos profissionais qualificados (carpinteiros, ferreiros, costureiras, entre outros), dos serviços (bares, restaurantes, hotéis, agência de transportes, aviação), madeireiras, fábricas de tecido, lojas de contas, plumas e miçangas, entre tantas outras. Nos ensaios das escolas de samba ela vê não apenas o processo formal dentro das escolas, mas também as barraquinhas de comida e os vendedores ambulantes.

- Embora não deva ser esse o sentido do Carnaval, é preciso mensurar a participação das escolas na formação do PIB, para que os governantes compreendam a importância do evento não apenas no setor turístico. Carnaval é muito mais que isso. A única resposta para essa falta de interesse em ver a dimensão das escolas de samba para o país só pode ser o preconceito, já que é uma festa de origem negra e feita, em sua maioria por negros e pobres. Se não for isso, há uma grande miopia em relação ao potencial da nossa festa - criticou Flávia.

O evento serviu para marcar o encerramento da exposição do carnavalesco Leandro Vieira sobre o Carnaval de 2017 da Estação Primeira de Mangueira, no Paço Imperial, e o lançamento de um caderno sobre seu trabalho na Mangueira.