Voluntarismo une turismo e responsabilidade social

Apesar da crise, o turismo social cresce no mundo, oferecendo aos  interessados a oportunidade de treinar inglês e conhecer o dia a dia local

Fotos: Camila Daccache
Fotos: Camila Daccache
Acordar cedo e - ao invés de deitar-se ao sol ou deixar-se seduzir pelo lazer e o ócio - partir para um dia que começa com a preparação da alimentação de famílias, ajuda em ações sociais e participação em projetos de recuperação da autoestima da população local. Essa costuma ser a rotina de milhares de jovens, normalmente entre 18 e 26 anos, que estão investindo no voluntarismo, ou turismo social, que associa o treinamento de idiomas, normalmente o inglês, com ações de responsabilidade social em diversos países do mundo.

Segundo Eduardo Frigo, diretor de produtos da CI - Intercâmbio e Viagens e o voluntarismo vem crescendo e, em 2016, a empresa registrou uma procura 50% maior que em 2015. As ações mais procuradas, normalmente, envolvem crianças em creches, orfanatos ou escolas e podem levar os turistas à África do Sul, Vietnã e Tailândia, entre outros.  O valor dos pacotes também atraem principalmente jovens em férias, já que uma semana com acomodação e alimentação custa em torno de R$ 1.700. O interessado deverá se responsabilizar por passagens, visto (caso haja necessidade) e vacinas.

São várias as empresas que fazem esse tipo de trabalho, sempre em conjunto com Organizações Não Governamentais (ONGs) nos cinco continentes, que coordenam e acompanham os voluntários nos projetos. A conversa com os interessados permite que as empresas identifiquem o perfil do jovem e consigam oferecer um portfólio de projetos que podem se adequar melhor a cada um.

A CI - Intercâmbio e Viagens, por exemplo, tem entre os seus principais produtos a interação com crianças de uma aldeia Zulu, em Valley of a Thousand Hills, na África do Sul, através do ensino do skate; cuidar e preparar comida para elefantes, ensinar crianças que nunca estiveram na escola ou capacitar as mulheres de Jaipur, na Índia; e escolher entre ser assistente de professores de escola pública, ajudante no centro médico infantil ou no orfanato, ou trabalhar com mulheres no fortalecimento de suas capacidades no Nepal, entre outros. Conheça a relação dos projetos da CI. Outras empresas que fazem esse tipo de trabalho também foram consultadas, mas não responderam.

Frigo ressalta que um dos grandes desafios para os turistas é a infraestrutura local, já que a maior parte dos projetos são em regiões pouco desenvolvidas, muitas vezes sem facilidades como internet. A empresa começou com um projeto de intercâmbio de idiomas na África do Sul e acabou ampliando o seu portfólio de projetos, percebendo o grande mercado que se abria na área do turismo social. Hoje a CI - Intercâmbio e Viagens é uma das principais empresas nesse mercado, buscando sempre novos projetos que possam levar a ação social a famílias e comunidades ao redor do mundo.

"Experiência emocionante"

Em seu primeiro turismo social, Camila Daccache, de 19 anos, escolheu um projeto com crianças e animais em Porto Elizabeth e Cidade do Cabo

A estudante Camila Daccache (foto) conhecia a África do Sul por filmes e vídeos de vida selvagem, o que ajudou na definição do projeto que iria abraçar em seu primeiro voluntarismo. Desde criança ela sonhava em viajar sozinha e conhecer lugares exóticos, fazer algo diferente, adquirir experiência, trabalhar a sua independência e ter boas histórias para contar. Essa, garante, foi a primeira de uma série de viagens que pretende fazer, ampliando seu conhecimento do mundo, construindo uma rede de amigos e ajudando milhares de pessoas em projetos de resgate de autoestima e educação.

"A viagem me agregou em muitas coisas, aprendi a ser feliz com a simplicidade, pois dormíamos em quartos compartilhados, trabalhávamos o dia inteiro. Fazíamos trabalhos braçais (cortar grama, carregar cimento, cavar a lama, entre outros), cuidar dos animais selvagens, como elefantes, búfalos, rinocerontes, zebras etc, alem de brincar com as crianças africanas órfãs com aids. Vi coisas que nunca tive contato na vida, só via na internet, parecia até uma ilusão dar injeção em um elefante enorme deitado na minha frente, enfaixar a pata de um bebê búfalo, foi incrível, emocionante e surpreendente!", frisou Camila.

A emoção mais forte que teve, segundo a estudante, foi quando os voluntários e a equipe de veterinários foram cuidar de um elefante que precisou ser adormecido com dardos tranquilizantes para a aplicação dos remédios necessários. Ela lembrou ainda que os voluntários possuem uma visão diferenciada daquela compartilhada pelos turistas tradicionais, uma vez que estão interagindo com os bichos, enfaixando pata de animais, tratando outros, enquanto um turista comum tem apenas a visão do outro lado da grade.

Ela incentiva os amigos a investirem nesse tipo de ação, já que as viagens acabam saindo mais baratas que um tour normal. Camila lembrou que pagou cerca de R$ 4 mil por duas semanas, incluindo guia 24h, casa, alimentação, passeio e transporte, mas garante que a experiência da viagem ultrapassa o carater lúdico e de ócio, mas, antes, reforça o seu sentido de cidadão e a consciência de estar construindo um mundo melhor. Em breve estará seguindo para a Tailândia, com um grupo de amigos que conheceu no projeto, a fim de conhecer novas regiões e levar a sua contribuição para projetos que ajudam as comunidades na construção de uma nova realidade.